A participação das mulheres na política no Brasil: o direito de votar, de sermos representadas, e de participar da tomada de decisão

Nos últimos cem anos, as mulheres brasileiras conquistaram o mercado de trabalho, o direito ao voto e chegaram à universidade. Pela primeira vez na história, o cargo mais importante do País foi ocupado por uma mulher: Dilma Roussef, eleita presidente da República em 2010. Apesar desses avanços, ainda há muitos desafios para assegurar a igualdade de gênero.

Essas conquistas e dificuldades foram debatidas e o índice brasileiro de participação de mulheres na política é semelhante ao dos países árabes, onde apenas 8,4% dos integrantes das câmaras altas dos Parlamentos são do sexo feminino. Na América Latina, o País perde apenas para o Panamá, onde 8,5% dos assentos da Câmara dos Deputados são ocupados por mulheres. Os maiores índices de participação feminina na política, de acordo com o levantamento feito pelo Nepem, são encontrados nos países escandinavos, que registram índices da ordem de 41%.

Os obstáculos para a maior representação feminina na política são vários, na opinião de Marlise Matos. Uma dificuldade apontada pela pesquisadora é cultural: as mulheres são educadas para cuidar, e os homens, para prover. “Nossa sociedade é estruturada em função dessa relação de poder. Muitas mulheres não têm tempo disponível para fazer uma campanha política porque precisam cuidar da família e dos filhos” , explicou.

Uma evidência desse problema é o fato de que a maioria das mulheres que ocupam cargos eletivos têm mais de 40 anos, e portanto, já criaram seus filhos. “Não adianta fazermos uma reforma política se não mexermos na divisão sexual do trabalho”, comentou a pesquisadora. Uma alternativa apontada por ela é a adoção de políticas públicas que estimulem a divisão do trabalho doméstico entre homens e mulheres, como já fizeram os países nórdicos.

Outro problema, na opinião de Marlise Matos, está no sistema político-partidário. Ela citou pesquisa realizada pelo Nepem com 112 candidatos e líderes políticos que identificou que, para muitos presidentes de partidos, as candidaturas femininas são inviáveis. “Muitos disseram que as mulheres não têm ambição política, o que não é verdade”, afirmou a pesquisadora. Para reverter essa situação, ela defende a sensibilização e preparação das mulheres para exercer suas candidaturas com protagonismo.

A deputada Rosângela Reis (PV) acrescentou outro obstáculo: a falta de recursos para financiar as campanhas eleitorais das mulheres. “Boa parte das candidatas entram nas campanhas por pura formalidade, para preencherem a cota do partido (que é de 30%). Sem dinheiro e sem autoestima, essas mulheres são meras coadjuvantes da cena política brasileira”, afirmou. Para solucionar esse problema, ela propõe a adoção do financiamento público de campanha, de modo a igualar as condições de disputa entre os candidatos.

Dificuldades no mercado de trabalho

As disparidades não se resumem à esfera da representação política. As mulheres também enfrentam situações de inferioridade no mercado de trabalho, segundo a presidente do Conselho Estadual da Mulher, Carmem Rocha Dias.

“As mulheres ainda se sujeitam a salários menores porque têm que conciliar a jornada de trabalho com os afazeres domésticos. Elas acabam optando pela jornada de trabalho parcial, o que reduz o seu poder de barganha no mercado de trabalho”, explicou a conselheira. Ainda de acordo com Carmem Rocha Dias, a necessidade de cuidar dos filhos levou ao surgimento de uma cultura empresarial que prioriza o homem em detrimento da mulher no Brasil.

A deputada Luzia Ferreira (PPS) acrescentou que a média de tempo gasto pelas mulheres nos afazeres domésticos é de 22 horas por semana, contra 9,5 horas semanais gastas pelos homens. “Apesar de constituírem quase metade da população economicamente ativa, as mulheres continuam a arcar com os cuidados familiares, que não são valorizados pela sociedade e acabam se tornando um trabalho invisível”, comentou.

Violência, educação e saúde também são desafios

A deputada Ana Maria Resende (PSDB) abordou em seu discurso a violência contra a mulher. Para a parlamentar, a cultura patriarcal brasileira contribui para que as mulheres sejam vítimas da violência doméstica, independente de raça, classe social, idade, religião ou nível cultural. “Muitos homens se acham no direito de descarregar em suas companheiras a raiva, a tensão, a frustração ou seus traumas”, afirmou. Para mudar essa situação, ela conclamou todas as mulheres a denunciarem as situações de agressão por parte de maridos ou companheiros.

Para a deputada Maria Tereza Lara (PT), as mulheres alcançaram inegável progresso na área da educação. Se nos anos 50 elas eram educadas apenas para ler receitas e orações, hoje elas são maioria em diversas carreiras profissionais de nível superior, como o magistério, lembrou a parlamentar.  “Essa política de eliminação da miséria deve estar focada nas mulheres”, comentou.

A deputada Liza Prado (PSB) lembrou a dificuldade de acesso das mulheres aos serviços públicos de saúde. “Vivemos mais que os homens, mas também adoecemos com mais frequência”, afirmou. Ela destacou que é preciso mobilizar as mulheres para que elas compareçam com mais frequência aos postos de saúde para realizar exames de prevenção do câncer. Outra demanda citada pela parlamentar é o atendimento especializado para vítimas de violência sexual.

Para o 1o-vice-presidente da ALMG, deputado José Henrique (PMDB), há muita resistência à participação das mulheres na política, mas o Brasil  aponta novos rumos para a afirmação feminina. “A ação das mulheres fará do Brasil um país mais ético, mais solidário e mais integrado”.

Fonte: JusBras

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